Gerúndio

Gerúndio é sempre; manso perene; trânsito permanente; camadas de tempo translúcidas sobrepostas feito escama que não se troca, mas se acumula feito memória-pele presente, marca latente; gerúndio é dormente, estesia silente; dor que mente, um silêncio de olhos fechados, escuro resignado em cinza transformado; é cicatriz o tempo todo lembrada e esquecida, sangue sem ferida. Gerúndio é a certeza de um talvez será.

Só e Tanto

Então se revela o filme e o impossível é só mais um substantivo. Só e tanto. Como dar-me a voltar se o retorno é também a abdicação do presente? Dúvidas tais como se coubessem na mesma esfera o ontem e o hoje. Não. Na pressa dos segundos que se amontoam em anos não há mais aquela casa, nem tanta inocência, convívios ou todas as lembranças. Há de sobra as interjeições arrastadas e os ditados sobre felicidade e ignorância. E saudade.

Latências [Rascunhos]

O riso permanece, doce como algodão e os seus elogios; os cabelos ganharam tons mais claros: são agora feitos de algodão.

Um colchão de flores, sempre impecável, perfumado de um cheiro de lavanda; eu lhe perguntava [à avó] para quê fazer a cama se não receberíamos visitas e logo nela eu pularia. "Pule nas rosas".

37 anos e a mesma cadeira. Hoje, entre os "cacarecos" dos meus avós, no "quartinho" do fundo do quintal. 

O final de semana era nosso: não havia posse; aplicava-se o vice-versa. Bastávamos naqueles 15, 16 anos: éramos preferenciais. Não resistimos, porém, aos novos mundos, suas companhias e rumos: virei à direita; ele, canhoto, à esquerda. E só há pouco voltamos a percorrer o mesmo caminho.

Lembro das inúmeras idas; ali, tão perto de casa, "uma curva à direita, logo depois do Monumento ao Vaqueiro, próximo ao aeroporto (antigo)". Era mesmo um mundo de água a Lagoa. As reminiscências do que havia no entorno dela vão se esvaindo por completo entre mato, ruínas e pichações. Quanto ao pai, voltei aos contatos após anos de todas as distâncias possíveis.

Uma proxy para os esses dois "eus" temporais.

Há em minha mente a visão turva de um bolo. Era sempre o mesmo para os aniversários de família. Minha mãe dizia que era uma torta e não um bolo; mas eu nunca soube a diferença.

Ainda sinto o gosto dos flocos de açúcar sendo quebrados entre os dentes; sinto até a textura da embalagem daqueles "beijinhos". O avô, de quem herdei o nome, me segurava nos braços - como fui amado. Ainda hoje, ali, naquela onde foi a minha primeira casa, encontram-se dispostos, naquele mesmo vão, uma espécie de ante-sala, tal mesa e móvel, agora preenchidos de berimbelos e bibelôs pertencentes a atual moradora. Ao lado, Valdir Machado, sereno, pleno, vivido e vívido, apesar do peito marcado por uma ponte,

Eu gostava da sua companhia, do seu tempero, tanto quanto daquele molho de tomate caseiro que ela usava na massa da pizza. Passei a ser conhecido na escola onde estudávamos como o "primo dela". Me apresentou o que havia além da esquina, na época em que os limites da rua eram uma fronteira: eu, então um clandestino no território da bonança. 

Dona Zélia, minha vó, forte como pedra, apesar da fragilidade que lhe trouxe uma válvula no lugar de um coração. Talvez toda essa "mecanicidade" tenha sido a razão para uma educação tão rígida e cheia de horários. Não reclamo, só agradeço. Mas hoje, me sinto um pássaro fora da gaiola de rosas, apesar da atrofia nas asas.

Há uma única criança que não sou eu: é meu filho. Cobertos os olhos enquanto dormia na casa da vó materna, varanda ventilada do Monte Castelo, deixo que ele, meu subconjunto, meu infinito, complemente essa estrada colorida, a partir de suas memórias em formação; meu desejo é que elas sejam azuis: sua herança. 

Latências [Prefixos]

Imagens prolixas, insistentes, aparentes no vão escuro das minhas órbitas.

Visões de cores pouco saturadas, de espaços nunca mais visitados.

Uma música, uma fala, um cheiro: os gatilhos.

Latências.

Cíclico.

Investigo, anseio... apelo ao relicário.

Ali encontro uma, duas, três. Mais.

[Interseções entre suporte e reminiscência].

Passo a vista; esforço-me para revivê-las.

Revisito o inanimado: estáticos subconjuntos meus.

Reencontro fantasmas, vivas almas.

Percebo, então, a importância do prefixo.

A palavra muda. Nada mais é igual.

Nem mesmo eu.

[mudo].

Sem fala.

Latências

Punctuns meus, latentes em nível memorial, meus inerentes. Lá [de novo] se vão, esfumaçados; sem uma silhueta específica.

Do meio da névoa, vez por outra, revelam-se para depois serem tragados, volúveis pseudo-figuras.

Com esforço eu tento apreendê-las, isolá-las.
[nem mesmo sei se foram vividas ou sonhadas; meu eterno fato versus delírio]

Depois, com o intento do revelar, dou a elas a imortalidade do enquanto dure.

Para que existam além de mim.

Desidratado

Vago, Vagueio, A tudo alheio, Desmaio; Escuro envolto, Cego, volto, Tateio, De soslaio. Brusco, busco, À nado peito, Na ponta do dedo, O teu lábio; Que o sinto seco, Teso: Solo acerbo, Beiço relicário. Então, rarefeito, Avalio o medo De certo decerto Ser o contrário. Surpreso à termo, Bem feito! Mão-sol, Dedo-árido!

Advérbios

Por aqui
Penso no ali

Acolá
Mas quando lá
Aqui
Quando ali
Acolá
Onde estar?

Assim, Assados

Criatura possuidora
Ou possuída?

Meu amor dos outros!
Ainda?

Vez por outra, comento:
“Quanto tempo!

Como aguentei, mãe
Tal erva daninha?”

“Danada,
Cabeça de vento,

Oca por dentro,
Uma nicotina!”

Inda me disseram, dia desses,
Sobre ti, Tina:

“Fios desfiados, queimados
Pela nuca, aloirados”

Eu tanto te pedi,
Menina:

“Nunca mais os deixe assim,
Assados”.

A-Mor-Te

Fotos tuas, nuas, na mão amassadas: sobram vincos e rasgos na pele-papel. Estás agora disforme, flor, conforme eu queria.

Sentia a dor
Doía
Do frio de amor
Caxemira,
Mira, flor:
A-
Mor-
Te
Daria

Posse

Me olha.
Me molha.
Eu te peço.
Posso?

Se cai tua lágrima no meu olho
O choro é nosso?

Se Maria

Eu, hein
Embaixo,
Em seu colo,
Ria
Mas ria, Maria
De mim
De tudo ria
E ali ficaria
Ora
Se bastasse um sim
Bastava, sim
Só bastava 1 sim
E esse unzinho?
Lá se vive?
atrás, Maria
Vive sim
Com teu biquíni vermelho
E teu cartaz que me veio
Envolvia-me-via
Apaixonado por ti
Ei, Maria
Ô, Maria
[tsic]
Bastava um sim.

"Odeio as Tuas Coisas no Gerúndo"

O arrepio dos pelos. Lembram, os pelos, os teus apelos: “odeio as tuas coisas no gerúndio”. Agora, de ti, apenas sensações úmidas no autocoito confesso; peço-te, distante, doído (odeio o particípio das minhas coisas), como quem pede a Deus.

[...]

A visita diurna da abelha se foi. Era sempre cedo, umas sete, sete e dez. Para onde levaste a Mel, nossa melipônia? Ela entrava pelo basculante do banheiro e nos trazia a manhã entre zumbidos e risadas. Te convenci, finalmente, que ela não tinha ferrão? Olho no espelho o meu reflexo e constato: mais fios brancos na barba escassa, pés de galinha e o botox que não fiz. E aquela nossa amiga, dermatologista, tanto se prontificou a aplicar sem cobrar. Engraçado. Hoje, nem me conhece mais. Piso em falso, deslizo em câmera lenta pelos metros quadrados, pareço atravessar as portas até o cheiro do café solitário. A geladeira agora é meio velha, de um inox sem graça com ímãs que não fazem mais sentido algum. Opaca. Opacos. O sofá é um infinito marcado pelas secas manchas de amor. Elefante marrom desbotado. Nele, se duvidar, numa busca mais pormenorizada, capaz de eu encontrar ali um cabelo teu, ou dois, remanescentes dos que eram acumulados depois de arrancados numa voga de minguar. Ali, meu colo era o teu refúgio na época em que o silêncio não era como hoje o sinto: constrangedor. Tudo em cima da bancada, o café amargo, o pão carioca, a margarina light, a fatia grossa de queijo. É assim que eu peço à moça do supermercado da sessão de frios desde quando me ensinaste: “faz assim, ó, uma fatiazinha mais grossa – o gosto da mussarela fica mais presente”. Estou sorrindo; não gargalhando. Não faço mais isso. Eu só sorrio, às vezes por simpatia, muitas vezes sem achar graça. De repente te senti presente e foi bom, por isso ri. Mas voltei ao normal, meu normal. Nicholas está grande, viu? O filho dos vizinhos já deve ter uns quatros anos. O pai continua sem dar o bom dia quando nos encontramos no elevador. Povo antipático. As vizinhas de lado, parede com parede, continuam do mesmo jeito, sem jeito com a gente. Comigo. A jovem senhora, quem eu chamava de “bom partido”, partiu; mudou-se e deixou o 504 vago, tal como está o outro lado do armário, o teu. Esqueço o café. Cato a mesma calça de ontem, aquela escura comprada nos States, e procuro uma melhor combinação dentre aquelas camisas de mangas curtas. Algumas delas, já diria a mamãe, nem prestam mais para trabalhar. “Meu filho, isso depõe tanto contra você”. Faz tempo que não me preocupo com aparência no emprego. Sinto-me seguro, estável, mesmo recusando algumas demandas ou adiando entregas. É pelos frequentes elogios à escrita em meus relatórios insubstituíveis. Então, concluo, tais vestimentas e apresentação redundam em ponto pacífico, relevado. Fazem vista grossa, por vezes fingem descaso e eu, calado estou, calado fico. E Vou ficando, ficando, até a hora de sair ao trabalho; atrasado.

[...]

O método me impede de abandonar os pisantes pelo apartamento. Sempre fui assim. Dou liberdade aos pés, um de cada vez, e busco a sandália. Guardo os sapatos na gavetinha do closet. Liturgia. A mochila eu deixo sobre a cama de solteiro no quarto do meio, nunca utilizado, exceto suas paredes que já me serviram como suporte para experimentos fotográficos. Vou despindo-me em direção ao banheiro e a camisa pouco suja tem lugar cativo na gaveta sob a pia. Meu corpo pede água fria. “Fredda”, como falaria Hélena, uma conhecida italiana. Ela nos deixou esse cesto terrível, um gatilho mental automático com sotaque incorporado: ouço sua voz sempre que penso na palavra “frio”; “freddo”. Meu humor melhorou na última hora, resultado de uma cervejinha pós-labuta. Espero o banho de rosto pra cima com direito a microespasmos nos olhos, o instinto da ansiedade pela primeira gota. Noutra situação, diriam que é a felicidade chegando. O olho treme e é a felicidade que vem. De onde tiram isso? O mofo voltou ao teto, principalmente nos vértices. Pudera, tudo tão abafado, só abro o basculante pela manhã, durante o banho, na esperança do retorno da Mel. Talvez choraria se ela voltasse. Minha pele ressecada bebe, molhada, nutrindo-se. 

[...]

Veneza, digo, Venetian. O garçom de meia idade nos atendeu numa simpatia de cor e gestos latinos. Pedimos um Valpolicella, o mediano da carta, nem caro, nem barato. Um grupo de tenores se apresentava perto, vestidos em roupas de época, tons pastel cheios de babados, inflando e esvaziando os pulmões de ar e de técnica. As sensações eram todas de novidade. A pressa, igual a zero. Brinde, gole, foto, antepasto. Santé! O vinho escorregava, leve, cordial. Tua beleza morena, marinada, sempre notada, meu par. A temperatura no interior do hotel, onde estávamos, agradável, tão inferior a do exterior: Semiárida Vegas. Lá fora, fiz uma foto tua que chamei de relicário. 

[...]

Desenho com o dedo, a partir de pingos d’água, indefinições no vidro – os restos de um banho. Também fica o bom aroma de um sabonete ordinário, mas nada comparado às tuas loções e líquidos de cheiro. É verdade, não tenho grandes ambições em se tratando de olfato. Em igual medida, passo ao largo da vaidade. De fato, tenho pouca ânsia sobre quase tudo (gosto da palavra “quase”, pois ela não compromete). Eu não era assim. Gostava do meu nariz de Nossa Senhora, igualmente (ou mais) dos cabelos castanhos lisos, das minhas simetrias faciais e mesmo das imperfeições. Eu achava até que estas bem combinavam com as minhas feições. Fiz questão de te levar para escolhermos uma boa armação de óculos, uma que fosse moderna, meio nerd, um tanto ajustada a mim. Optamos por uma Armani, sem moldura. Semanas depois eu já estava enxergando tudo melhor, nada embaçado. Só ainda não conseguia ver o quanto eu era feliz, mas bem sabia.

[...]

Aposto

Pressiono os olhos e a escuridão é agora um vermelho aguado: a mesma cor da última coisa que vi: um letreiro neon: "pressione os olhos".

Distância

Distância. Diz, fala à ânsia; me conta de ti. A quantos braços e abraços tu estás daqui? Quantas lágrimas e soluços de troco, na compra de duas passagens pro teu fim? Me tira esse agouro ou desfaça-te de uma vez em malogro, mas aparta-te de mim.

Micro-textos de Inverno - Parte III

Infiltra-se em mim; poros. Mistura-se com poeira e vento. E eu: estático. Resseco; enrugo; engesso. Adianto o tempo, a ação do sol; da chuva; da erosão. Sobre mim. E uma nota [sol menor]. E o silêncio. Absoluto. Outra nota... e outra... e outra; uma voz. Canção. Meu sinal. Pisco; acordo; mexo; forço. Quebro a camada que cobre. A casca. A mim. Aspiro. A ventania; o cheiro d’água. Saliva do céu. Que lava; limpa; purifica; liberta; rejuvenesce.


Voltei.

Micro-textos de Inverno - Parte II

Carneiros? Conto gotas.

Micro-textos de Inverno - Parte I

Corro à janela [primeira ação do dia] e constato: cinza – em todas as suas possíveis gradações. A beleza do cinza [Ed Kowalczyk]. O trânsito se amontoa; o vermelho do semáforo é mais vivo, mais saturado. O verde também; então sigo, com uma flor violeta no para-brisa, um contraste sublime – capricho natural. Resumo: chove.

Inútil Ensaio Sobre a Primeira e Única Citação do Meu Novo Bloco de Notas

Deixe as boas ideias conduzirem o seu mundo” é a mensagem escrita na capa do meu novo bloco de citações. Resolvi fazer isso, ter um caderno onde eu pudesse escrever as boas ideias dos outros, tanto quanto o fez a minha esposa – desde que começou a leitura de Jun Do – e, pelo que fiquei sabendo há pouco tempo, também o Walter Benjamin. Enquanto divago por entre frustrações de ausências carnavalescas [a minha, por assim dizer] e, ao mesmo tempo, caio em conformismo graças a ajuda da chuva forte que despenca lá fora [fico a imaginar a quantidade de belas fantasias molhadas e, ao mesmo tempo, as faces nada amedrontadas dos donos dessas alegorias no regozijo do pensamento: pelo menos em vim], passo aos rabiscos no papel – os rabiscos e o papel que hoje equivalem à caligrafia perfeitamente eletrônica e a um documento do Word – e penso numa taça de vinho, daquele mesmo que sobrou da noite de ontem. Os ímãs da geladeira me encaram; a garrafa de carmenére me provoca; e é assim que eu tenho a certeza: preciso fazer algo; sentir a utilidade [ou a inutilidade] entrando! Nada melhor para isso do que a escrita, meu disfarce engraçado no combate à solidão. Então me apego a ela, a esta, melhor dizendo, e me arrisco a iniciar este conto, o qual denominarei de “Terça Carnavalesca”. Mas... e o assunto? Não há. Então, espera... vamos mudar o mote da coisa e, ao invés de Conto, teremos agora um Ensaio. E também um novo título a este escrito: “Inútil Ensaio Sobre A Primeira E Única Citação Do Meu Novo Bloco De Notas”. Título extenso, mas é isso mesmo [licença poética, levando em conta a sessão matinê de hoje – “Horns” – e o bebê de plástico que resolveram incluir no “Sniper Americano”]. E ela [a primeira e única] é de Robert Frank, “há uma coisa que o fotógrafo precisa abrigar: a humanidade do momento”. Divagando. Vou cair na tentação de mudar, de fazer uma rápida e pequena intervenção para tornar a tal frase adequada ao meu ponto de vista e também para justificar este passatempo aqui. Que tal “o momento da humanidade”? Agora: “há uma coisa que o fotógrafo precisa abrigar: o momento da humanidade”. Uma simples mudança, hein, mas que alteraria, quem sabe por completo, o sentido do que pretendera o autor de “The Americans”? Vai saber. Mas deixa eu mesmo me dar de presente momino a prerrogativa dessa argumentação subjetiva [pois sim, já que estamos a tratar de opinião – não, não tenho credenciais, eu sei, mas mesmo assim]. Explico: imagina captar tal momento da realidade humana, quase um click metafísico, subvertendo, à posteridade, a falsidade, mas registrando, por outro lado, e para todo o sempre [ou até quando durar o papel da impressão] a grandeza do genuíno! Haja flecha, arqueiro Zen! Na outra versão, a famigerada, “a humanidade do momento” me leva a crer, pelo menos na minha rasa análise, que em todo ele [o instante] está presente a tal humanidade. E é verdade, do ponto de vista prático, desde que esteja ali o homem, o taxonômico homo sapiens – ou as suas intervenções. Mas o que defendo é bem mais profundo e tão menos superficial. Ora, avalie poder enxergar, tal como uma máquina de raio x, se um ato específico a se passar diante dos nossos olhos, olhos nus, é, de fato, naturalmente humano, organicamente digno da fidedignidade humana [mais uma licença]! Olha a dificuldade que há nisso! Exemplo: é Carnaval, Sanatório Geral, 13:00 do domingo. Lá vejo um folião fantasiado de Pierrot, desviando a multidão que se amontoa em blocos para aproveitar a sombra das árvores da pracinha Gentil. Espera, congela. Acabo de passar o olhar, e, no lado oposto, vem caminhando uma moça, coincidentemente trajada de... Colombina. Clichê? É porque você não é um ou outro! Play. Eles sequer se conhecem, e, tampouco, sabem que se esbarrarão em... cinco, quatro, três, dois... pronto, o esbarro [calculei errado]. Congela novamente! Param ao sol; são recíprocos no sorriso; se encaram – os olhares mergulham, se invadem e se confundem. E ali estou, com a nova Câmera Raio X, preparado pro momento áureo, autêntico e, então, pá, o click. O que tenho? O amor + paixão, e o talvez mais efêmero e lindo momento da vida daquele casal que em algumas décadas poderá se felicitar ao mostrar aquela mesma imagem num porta-retratos aos netos, todos sentados na sala, em mais um domingo de Carnaval, num apartamento qualquer do Benfica. Então, por favor, me deixe com o meu “momento da humanidade”, pois o que eu registrei ali, naquela fração de tempo, não foi um Pierrot mal intencionado ou uma Colombina querendo simplesmente mais um beijo de folia, mas a veracidade de um amor duradouro. Pow! Um brinde ao Carmenére e a chuva continua!

Cíclico

Percorre os pelos da perna; pela pele; pela a pele como se fervesse, a gota d'água [mas o que fervia era a derme febril]. Febre [calor e mormaço] que marejava o olho até o transbordar - nova gota. Vicioso. Cíclico.

O [A Saga]

Pra você, basta saber que era ela. Sem detalhadas descrições, cor de pele ou dos olhos, roupa, nada. Era ela e me agradava visualmente. E isso bastava! Sentou-se próxima, no meu campo visual - uma daquelas realizações ou um daqueles eventos feitos por alguém, algum gigante habitante de outra dimensão que nos vê como fantoches. Também não foi coincidência, já diria James Redfield em sua Profecia Celestina, mas um arranjo de energias que a conduziram àquele banco, repito, frente a mim.

Eu vivia um período de euforia e de autoestima elevada e, naquele momento, até mesmo a condução do copo de cerveja à boca parecia extraído de um filme de Allen. Me valia das melhores caras e bocas, penteava com os dedos os meus cabelos em trejeitos de charme; me sentia livre, vivo e aventureiro. Único.

Ela, ao contrário, era só ela; à mesa, à vontade, segura no seu mundo, sentada a la quem não quer impressionar. Mas, linda! Mais linda, impossível! Encontrou-me quando eu menos esperava e notou a minha recompostura ao lhe notar. Riu-se. E riu-se de novo. Bebia no meu ritmo. Fumava no meu ritmo.

Em pouco tempo, bebíamos no mesmo ritmo, fumávamos no mesmo ritmo. Inventávamos motivos para algum toque que pudesse parecer não intencional: mão no braço, no ombro. Contato. Inclinação. Nossos olhos... mal piscavam. Uma bolha nos cercava, um campo de força, no qual apenas o garçom tinha permissão para invadir.

A "minha", foi esse o nome que lhe dei, fechava os olhos quando a brisa lhe acariciava - parecia querer, desejar, que a brisa fosse eu. E naquela noite todos os desejos foram consumados e então me vi ao seu lado numa cama de motel. Conduzidos pela paixão, potencializados pelo álcool, dançamos colados, nos amamos, precipitados, nos entregamos à Morfeu.

Na manhã seguinte, deixei-a deitada, dormida; antes, contudo, olhei-a tanto, toda ela, atento aos detalhes. Concluí, então, que acordaria ao seu lado todo santo dia. Namoraria. Conheceria os pais. Noivaria. Casaria. Tudo de novo. Mas já não podia. O "tudo de novo" me despertara: voltei à vida real