O riso permanece, doce como algodão e os seus elogios; os cabelos ganharam tons mais claros: são agora feitos de algodão.
Um colchão de flores, sempre impecável, perfumado de um cheiro de lavanda; eu lhe perguntava [à avó] para quê fazer a cama se não receberíamos visitas e logo nela eu pularia. "Pule nas rosas".
37 anos e a mesma cadeira. Hoje, entre os "cacarecos" dos meus avós, no "quartinho" do fundo do quintal.
O final de semana era nosso: não havia posse; aplicava-se o vice-versa. Bastávamos naqueles 15, 16 anos: éramos preferenciais. Não resistimos, porém, aos novos mundos, suas companhias e rumos: virei à direita; ele, canhoto, à esquerda. E só há pouco voltamos a percorrer o mesmo caminho.
Lembro das inúmeras idas; ali, tão perto de casa, "uma curva à direita, logo depois do Monumento ao Vaqueiro, próximo ao aeroporto (antigo)". Era mesmo um mundo de água a Lagoa. As reminiscências do que havia no entorno dela vão se esvaindo por completo entre mato, ruínas e pichações. Quanto ao pai, voltei aos contatos após anos de todas as distâncias possíveis.
Uma proxy para os esses dois "eus" temporais.
Há em minha mente a visão turva de um bolo. Era sempre o mesmo para os aniversários de família. Minha mãe dizia que era uma torta e não um bolo; mas eu nunca soube a diferença.
Ainda sinto o gosto dos flocos de açúcar sendo quebrados entre os dentes; sinto até a textura da embalagem daqueles "beijinhos". O avô, de quem herdei o nome, me segurava nos braços - como fui amado. Ainda hoje, ali, naquela onde foi a minha primeira casa, encontram-se dispostos, naquele mesmo vão, uma espécie de ante-sala, tal mesa e móvel, agora preenchidos de berimbelos e bibelôs pertencentes a atual moradora. Ao lado, Valdir Machado, sereno, pleno, vivido e vívido, apesar do peito marcado por uma ponte,
Eu gostava da sua companhia, do seu tempero, tanto quanto daquele molho de tomate caseiro que ela usava na massa da pizza. Passei a ser conhecido na escola onde estudávamos como o "primo dela". Me apresentou o que havia além da esquina, na época em que os limites da rua eram uma fronteira: eu, então um clandestino no território da bonança.
Dona Zélia, minha vó, forte como pedra, apesar da fragilidade que lhe trouxe uma válvula no lugar de um coração. Talvez toda essa "mecanicidade" tenha sido a razão para uma educação tão rígida e cheia de horários. Não reclamo, só agradeço. Mas hoje, me sinto um pássaro fora da gaiola de rosas, apesar da atrofia nas asas.
Há uma única criança que não sou eu: é meu filho. Cobertos os olhos enquanto dormia na casa da vó materna, varanda ventilada do Monte Castelo, deixo que ele, meu subconjunto, meu infinito, complemente essa estrada colorida, a partir de suas memórias em formação; meu desejo é que elas sejam azuis: sua herança.