Inútil Ensaio Sobre a Primeira e Única Citação do Meu Novo Bloco de Notas

“Deixe as boas ideias conduzirem o seu mundo” é a mensagem escrita na capa do meu novo bloco de citações. Resolvi fazer isso, ter um caderno onde eu pudesse escrever as boas ideias dos outros, tanto quanto o fez a minha esposa – desde que começou a leitura de Jun Do – e, pelo que fiquei sabendo há pouco tempo, também o Walter Benjamin. Enquanto divago por entre frustrações de ausências carnavalescas [a minha, por assim dizer] e, ao mesmo tempo, caio em conformismo graças a ajuda da chuva forte que despenca lá fora [fico a imaginar a quantidade de belas fantasias molhadas e, ao mesmo tempo, as faces nada amedrontadas dos donos dessas alegorias no regozijo do pensamento: pelo menos em vim], passo aos rabiscos no papel – os rabiscos e o papel que hoje equivalem à caligrafia perfeitamente eletrônica e a um documento do Word – e penso numa taça de vinho, daquele mesmo que sobrou da noite de ontem. Os ímãs da geladeira me encaram; a garrafa de carmenére me provoca; e é assim que eu tenho a certeza: preciso fazer algo; sentir a utilidade [ou a inutilidade] entrando! Nada melhor para isso do que a escrita, meu disfarce engraçado no combate à solidão. Então me apego a ela, a esta, melhor dizendo, e me arrisco a iniciar este conto, o qual denominarei de “Terça Carnavalesca”. Mas... e o assunto? Não há. Então, espera... vamos mudar o mote da coisa e, ao invés de Conto, teremos agora um Ensaio. E também um novo título a este escrito: “Inútil Ensaio Sobre A Primeira E Única Citação Do Meu Novo Bloco De Notas”. Título extenso, mas é isso mesmo [licença poética, levando em conta a sessão matinê de hoje – “Horns” – e o bebê de plástico que resolveram incluir no “Sniper Americano”]. E ela [a primeira e única] é de Robert Frank, “há uma coisa que o fotógrafo precisa abrigar: a humanidade do momento”. Divagando. Vou cair na tentação de mudar, de fazer uma rápida e pequena intervenção para tornar a tal frase adequada ao meu ponto de vista e também para justificar este passatempo aqui. Que tal “o momento da humanidade”? Agora: “há uma coisa que o fotógrafo precisa abrigar: o momento da humanidade”. Uma simples mudança, hein, mas que alteraria, quem sabe por completo, o sentido do que pretendera o autor de “The Americans”? Vai saber. Mas deixa eu mesmo me dar de presente momino a prerrogativa dessa argumentação subjetiva [pois sim, já que estamos a tratar de opinião – não, não tenho credenciais, eu sei, mas mesmo assim]. Explico: imagina captar tal momento da realidade humana, quase um click metafísico, subvertendo, à posteridade, a falsidade, mas registrando, por outro lado, e para todo o sempre [ou até quando durar o papel da impressão] a grandeza do genuíno! Haja flecha, arqueiro Zen! Na outra versão, a famigerada, “a humanidade do momento” me leva a crer, pelo menos na minha rasa análise, que em todo ele [o instante] está presente a tal humanidade. E é verdade, do ponto de vista prático, desde que esteja ali o homem, o taxonômico homo sapiens – ou as suas intervenções. Mas o que defendo é bem mais profundo e tão menos superficial. Ora, avalie poder enxergar, tal como uma máquina de raio x, se um ato específico a se passar diante dos nossos olhos, olhos nus, é, de fato, naturalmente humano, organicamente digno da fidedignidade humana [mais uma licença]! Olha a dificuldade que há nisso! Exemplo: é Carnaval, Sanatório Geral, 13:00 do domingo. Lá vejo um folião fantasiado de Pierrot, desviando a multidão que se amontoa em blocos para aproveitar a sombra das árvores da pracinha Gentil. Espera, congela. Acabo de passar o olhar, e, no lado oposto, vem caminhando uma moça, coincidentemente trajada de... Colombina. Clichê? É porque você não é um ou outro! Play. Eles sequer se conhecem, e, tampouco, sabem que se esbarrarão em... cinco, quatro, três, dois... pronto, o esbarro [calculei errado]. Congela novamente! Param ao sol; são recíprocos no sorriso; se encaram – os olhares mergulham, se invadem e se confundem. E ali estou, com a nova Câmera Raio X, preparado pro momento áureo, autêntico e, então, pá, o click. O que tenho? O amor + paixão, e o talvez mais efêmero e lindo momento da vida daquele casal que em algumas décadas poderá se felicitar ao mostrar aquela mesma imagem num porta-retratos aos netos, todos sentados na sala, em mais um domingo de Carnaval, num apartamento qualquer do Benfica. Então, por favor, me deixe com o meu “momento da humanidade”, pois o que eu registrei ali, naquela fração de tempo, não foi um Pierrot mal intencionado ou uma Colombina querendo simplesmente mais um beijo de folia, mas a veracidade de um amor duradouro. Pow! Um brinde ao Carmenére e a chuva continua!