"Odeio as Tuas Coisas no Gerúndo"

O arrepio dos pelos. Lembram, os pelos, os teus apelos: “odeio as tuas coisas no gerúndio”. Agora, de ti, apenas sensações úmidas no autocoito confesso; peço-te, distante, doído (odeio o particípio das minhas coisas), como quem pede a Deus.

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A visita diurna da abelha se foi. Era sempre cedo, umas sete, sete e dez. Para onde levaste a Mel, nossa melipônia? Ela entrava pelo basculante do banheiro e nos trazia a manhã entre zumbidos e risadas. Te convenci, finalmente, que ela não tinha ferrão? Olho no espelho o meu reflexo e constato: mais fios brancos na barba escassa, pés de galinha e o botox que não fiz. E aquela nossa amiga, dermatologista, tanto se prontificou a aplicar sem cobrar. Engraçado. Hoje, nem me conhece mais. Piso em falso, deslizo em câmera lenta pelos metros quadrados, pareço atravessar as portas até o cheiro do café solitário. A geladeira agora é meio velha, de um inox sem graça com ímãs que não fazem mais sentido algum. Opaca. Opacos. O sofá é um infinito marcado pelas secas manchas de amor. Elefante marrom desbotado. Nele, se duvidar, numa busca mais pormenorizada, capaz de eu encontrar ali um cabelo teu, ou dois, remanescentes dos que eram acumulados depois de arrancados numa voga de minguar. Ali, meu colo era o teu refúgio na época em que o silêncio não era como hoje o sinto: constrangedor. Tudo em cima da bancada, o café amargo, o pão carioca, a margarina light, a fatia grossa de queijo. É assim que eu peço à moça do supermercado da sessão de frios desde quando me ensinaste: “faz assim, ó, uma fatiazinha mais grossa – o gosto da mussarela fica mais presente”. Estou sorrindo; não gargalhando. Não faço mais isso. Eu só sorrio, às vezes por simpatia, muitas vezes sem achar graça. De repente te senti presente e foi bom, por isso ri. Mas voltei ao normal, meu normal. Nicholas está grande, viu? O filho dos vizinhos já deve ter uns quatros anos. O pai continua sem dar o bom dia quando nos encontramos no elevador. Povo antipático. As vizinhas de lado, parede com parede, continuam do mesmo jeito, sem jeito com a gente. Comigo. A jovem senhora, quem eu chamava de “bom partido”, partiu; mudou-se e deixou o 504 vago, tal como está o outro lado do armário, o teu. Esqueço o café. Cato a mesma calça de ontem, aquela escura comprada nos States, e procuro uma melhor combinação dentre aquelas camisas de mangas curtas. Algumas delas, já diria a mamãe, nem prestam mais para trabalhar. “Meu filho, isso depõe tanto contra você”. Faz tempo que não me preocupo com aparência no emprego. Sinto-me seguro, estável, mesmo recusando algumas demandas ou adiando entregas. É pelos frequentes elogios à escrita em meus relatórios insubstituíveis. Então, concluo, tais vestimentas e apresentação redundam em ponto pacífico, relevado. Fazem vista grossa, por vezes fingem descaso e eu, calado estou, calado fico. E Vou ficando, ficando, até a hora de sair ao trabalho; atrasado.

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O método me impede de abandonar os pisantes pelo apartamento. Sempre fui assim. Dou liberdade aos pés, um de cada vez, e busco a sandália. Guardo os sapatos na gavetinha do closet. Liturgia. A mochila eu deixo sobre a cama de solteiro no quarto do meio, nunca utilizado, exceto suas paredes que já me serviram como suporte para experimentos fotográficos. Vou despindo-me em direção ao banheiro e a camisa pouco suja tem lugar cativo na gaveta sob a pia. Meu corpo pede água fria. “Fredda”, como falaria Hélena, uma conhecida italiana. Ela nos deixou esse cesto terrível, um gatilho mental automático com sotaque incorporado: ouço sua voz sempre que penso na palavra “frio”; “freddo”. Meu humor melhorou na última hora, resultado de uma cervejinha pós-labuta. Espero o banho de rosto pra cima com direito a microespasmos nos olhos, o instinto da ansiedade pela primeira gota. Noutra situação, diriam que é a felicidade chegando. O olho treme e é a felicidade que vem. De onde tiram isso? O mofo voltou ao teto, principalmente nos vértices. Pudera, tudo tão abafado, só abro o basculante pela manhã, durante o banho, na esperança do retorno da Mel. Talvez choraria se ela voltasse. Minha pele ressecada bebe, molhada, nutrindo-se. 

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Veneza, digo, Venetian. O garçom de meia idade nos atendeu numa simpatia de cor e gestos latinos. Pedimos um Valpolicella, o mediano da carta, nem caro, nem barato. Um grupo de tenores se apresentava perto, vestidos em roupas de época, tons pastel cheios de babados, inflando e esvaziando os pulmões de ar e de técnica. As sensações eram todas de novidade. A pressa, igual a zero. Brinde, gole, foto, antepasto. Santé! O vinho escorregava, leve, cordial. Tua beleza morena, marinada, sempre notada, meu par. A temperatura no interior do hotel, onde estávamos, agradável, tão inferior a do exterior: Semiárida Vegas. Lá fora, fiz uma foto tua que chamei de relicário. 

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Desenho com o dedo, a partir de pingos d’água, indefinições no vidro – os restos de um banho. Também fica o bom aroma de um sabonete ordinário, mas nada comparado às tuas loções e líquidos de cheiro. É verdade, não tenho grandes ambições em se tratando de olfato. Em igual medida, passo ao largo da vaidade. De fato, tenho pouca ânsia sobre quase tudo (gosto da palavra “quase”, pois ela não compromete). Eu não era assim. Gostava do meu nariz de Nossa Senhora, igualmente (ou mais) dos cabelos castanhos lisos, das minhas simetrias faciais e mesmo das imperfeições. Eu achava até que estas bem combinavam com as minhas feições. Fiz questão de te levar para escolhermos uma boa armação de óculos, uma que fosse moderna, meio nerd, um tanto ajustada a mim. Optamos por uma Armani, sem moldura. Semanas depois eu já estava enxergando tudo melhor, nada embaçado. Só ainda não conseguia ver o quanto eu era feliz, mas bem sabia.

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