"Peça-me"
Por
Valdir
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[Contos],
[Sem os Pés no Chão]
Seus olhos brilhavam na escuridão, mas era uma brilho fosco, opaco. Por isso cheguei mais perto, para checar. Ela estava sentada no fio de pedra, embaixo de um jambeiro, retribuindo o meu olhar adverso. Me aproximei... ainda mais. Seus cabelos loiros, fios de ovos, estavam cobertos por uma camada rosa, as “flores do pé de jambo” [eu pensei]. Sentei ao seu lado, mas antes pedi licença: “posso?”. E pude. Não puxei conversa... só respeitei o nosso compromisso com o silêncio. Cheirava à alfazema, ela. Bela. Passeei pelo seu corpo sem, contudo, tocá-la. Mas eu precisava? Achei que sim, e de propósito levei o meu braço para encostar o seu, observando, instantaneamente, um reflexo: ligeira piscada. Natural; aliás, físico, fisiológico. Também só isso... nada mais: a moça continuava imóvel, os olhos perdidos na noite, foscos, opacos. Mudando de assunto, a lua era nova, viu; em fase: por entre os galhos e as folhas negras era possível a mim vê-la, branca e límpida, a espiar aquele inusitado e casual encontro. Curiosa, Lua? Então que me ajudasse a descobrir o que estaria pensando aquela lourinha de olhos perdidos, presos na direção de um qualquer abismo cavado por sua mente dormente. Menta? Sim, menta. Beijo com sabor de menta, foi o que ela deve ter pensado. Obrigado, amiga Lua, pelo nada feito [foi o que eu pensei], pois descobri aquilo sozinho, com um desconfiado beijo em lábios grudados que pareciam levados quando deles me soltei. Seus olhos, outrora abertos, foscos, estavam já fechados, refletindo, internamente, o clarão da lua que, então aumentada, antecipara sua fase, a cheia, para ver melhor entre os galhos. “Achei-a”, a lua falou, piscando. Só assim lembrei das minhas antigas madrugadas, no quarto da radiola, junto de meu avô, varando a noite num turbilhão de Roberto Carlos. Ele, o avô, misterioso e sábio, entoou um refrão e orientou-me para que eu fizesse o mesmo: “lua, ilumina a rua... toda noite, em cada fase sua... e diz a ela, não posso mais ficar assim... lua, traz ela pra mim...”. E então, finda a lembrança, a menina, mágica, abriu seus olhos, dessa feita atentos, avaliadores, exploradores e capazes de ler a minha alma. Estavam eles diferentes... não eram mais opacos, tristes ou perdidos. Tinham vida, isso sim, refletindo o luar como um satélite natural recém-fabricado. Sua voz, era sua vez, soletrou, delicada, os mais apaixonantes dizeres, embora que simples: “prazer, meu nome é Luana”.