Minha Cartilha dos Sonhos

Não consigo enxergar um só sonho diante dos meus olhos, assim, sem esforço gritante, gigante, ou concentração pedante. Absolutamente. Sequer tocá-lo é possível, pelo menos, enquanto não concretizado. E só assim, o é: se abstrato, intangível, platônico, morfético. E, perceba, não inventei roda alguma nessas elucubrações, pois todos sabem, todos sentem: sonho é palavra que descreve uma vida que se quer, que se anseia, vívida, tão vivida quanto se possa; plena, rápida ou lenta, próxima ou distante. Sonhar não custa, nada; está ali, no parque de diversões imaginário, no picadeiro do circo (o voador), na prateleira da alma: é só escolher o seu, o teu, o meu, o nosso. Ele é individual, é coletivo; é pessoal; impessoal, pessoal! Irrestrito. Sonho também é bombom, é valsa. É bom! É tom, música, melodia sóbria ou etílica... é som. É sinfonia misteriosa, é dom para muito... poucos. É dom porque sonhar acordado é teatralizar, é protagonizar a peça, o ato de um mundo idealizado, dogmático. Sonhar é ser socialista, capitalista ou... chinês. É ter coragem de ser ridículo; é ter a coragem do ser ridículo, aquele em quem se é transformado enquanto sonhador, perdido, a andar à toa pelo mundo dos astros, dos pequenos príncipes e das flores do jardim de Versailles. Sonhar, amigo, é ser PhD em análise combinatória! É, num só afago, abarcar Osama e Obama! Eu assino embaixo: o homem que sonha, o verdadeiro, vive a ponto de se perder entre a realidade e a ficção. E então, aprisionado num universo particular, num transe, ele metamorfoseia mentira em verdade, ilusão em razão, desilusão em fé, fim em início... morte em vida, Severina. Eu tenho apenas um sonho: o de ser um sonhador!