A fragrância das ervas advinha da lustrada banheira que, repleta de sais e espumas até a borda, na iminência de transbordar, escondia, quase totalmente, o esbelto corpo de Carol. Restava, à vista, apenas o rosto de menina bem-nascida e uma das mãos, engelhadas, a tatear uma taça de cristal semi-vazia, ou semi-cheia, depende do referencial, de um artesanal e caro vinho suíço, tinto, da variedade Cabernet Sauvignon. A mão tateava, pois os parceiros e verdes olhos, fechados, eram naquele momento somente dois finos círculos de pepino em cujas bordas ainda existia a casca. Aquilo era tão... orgânico.
Minha cara esposa apoiava, pela nuca, a cabeça na borda arredondada da louça branca, deixando escorrer os cabelos que, úmidos, pareciam correr, líquidos e lisos, desde a raiz até o chão, simulando uma longa e estonteante cascata negra. Era essa a minha visão quando, ao voltar do escritório, adentrei ao nosso novo banheiro, naquele ponto, parado de costas à densa porta...
“Ficou um mimo o novo banheiro”, eu pensei: amplo, decorado bem ao estilo “retrô” com castiçais, velas, modernos móveis de madeira nobre que imitavam artigos antigos. Intrigante essa nova moda de cultuar coisas velhas, como se velhas realmente fossem, mas não sendo. Melhor pra mim, um nostálgico por determinação, não por opção. Como seria a mim uma opção, se, resignadamente, não tenho outra? Ela simplesmente gostava de tudo quanto era velho, antigo, colonial e provinciano. Herdou tal gosto da mãe, Dona Justa.
Justa, por sua vez, era uma senhora pouco distinta, de nariz empinado... metida à besta! Mas, justiça seja feita, a mulher trazia-se sempre impecável: belo penteado, bolsa à tira-colo, sandálias belíssimas, brincos discretos e vestido exclusivo, geralmente na cor nude – “não posso adivinhar, querido, quando será a próxima foto social!”. À margem dos sessenta anos, vou dizer, com toda sinceridade, não a trocaria por muita mulher caucasiana. E, à propósito, se basta olhar a sogra para saber a aparência da esposa no futuro, eu tinha em mãos um grande trunfo, a verdadeira fonte da juventude. E pensar que Juan Ponce de León, séculos antes, desperdiçara a vida inteira procurando algo, sem imaginar, contudo, ser esse algo uma pessoa, cujo gene da eterna jovialidade vem sendo hereditariamente transferido através dos milênios!
Com tudo isso, é fácil intuir que minha sogra tinha passe livre nos melhores eventos promovidos pela alta sociedade local. Aliás, apesar da natural antipatia que lhe era inerente, sua presença era requisitada, e até necessária, se o anfitrião classista pretendesse conferir à festa certa importância.
E por culpa da imortal “forever young” Justa, minha amada era muito, muito fútil. Também por culpa dela, uma ex miss Brasil, minha Carolina era linda, o tempo inteiro deslumbrante, seja ao acordar ou até quando suja na lama de Daying. Ainda por carga genética, minha mulher era o bom-gosto em pessoa, apreciadora da ostentação, da decoração e, infelizmente, da redecoração. Assim, num de seus delírios de grandeza instalou-se no seu cérebro, como um endoparasita, a idéia de reformar a nossa suíte.
Então, cerca de um mês depois, as paredes já se erguiam estampadas num papel de cor saturada na exata gradação “vermelho cansado”. O piso, agora um porcelanato italiano praticamente sem cortes ou junções, fora ali colocado em apenas quatro grandes peças (mesmo assim, foram necessários três dias para assentá-las). As pias, duas belas e perfeitas corcovas invertidas, tinham torneiras douradas, “démodé”, lindas! O grande espelho, apoiado intencionalmente sobre o claro mármore da pia, emoldurava-se em ouro maciço, puro, de vinte e quatro quilates (tal moldura lembrava o aspecto dos adereços dispostos por toda a Catedral granadina: estonteantes imagens e altares dourados, em que pese o fato de que esses valiosos objetos espanhóis tinham apenas 80% de pureza – eram considerados, dessa forma, tão somente, ouro português). Também se tornaram áureos os porta-toalhas, as maçanetas, os pegadores de gavetas e todos os detalhes e acessórios contidos naquele nosso rico espaço. O teto? Ah, o teto de lindos detalhes em gesso, do qual pendiam elegantes lustres adquiridos junto a um renomado colecionador de antiguidades, continha uma grande gravura, pero discreta, feita à mão: pequeninos anjos e valquírias aladas, pessoalmente pintados pelo já famoso Ives Portinari, sobrinho-neto do Cândido, o famigerado.
Ao final da reforma, tudo ficou tão esplêndido que lembro ter ouvido uma frase, ecoada em uníssono, do carpinteiro, do marceneiro, do pedreiro e do mestre de obras: “a nossa obra-prima”; os quatro trazendo as mãos espalmadas, prontos para verem nelas descansar as numerosas e quentes “verdinhas”, recém-saídas do “forno”. “Só aceitamos pagamento em espécie!”.
Cara Carolina, sentindo minha presença, lentamente sentou-se ereta, cuidadosa para não deixar cair os pepinos dos olhos. Imediatamente depois, indagou: "quem está aí? É você, meu amor?". Sim, era eu; apaixonado... e falido.