José Glico, O Caixeiro Viajante
Por
Valdir
| Categorize:
[Contos]
Trago na mala doces e bolos, açúcares em geral! Tudo para adoçar a tua vida. Venho fazer-te produzir enzimas, insulinas; lembrar-te que a vida é colorida, tanto quanto a cobertura desta pequena iguaria de festa, aqui na minha mão, que agora tento te vender. Vai, entregue-se, deixe a dieta de lado, pelo menos um dia, é só hoje. Vive hoje, somente. Imagina esta venda como uma semente que, para sempre, te germinará internamente as sensações açucaradas, sem que necessites, jamais, nunca mais, ingerir uma nova dose. E voe plenamente, prove desta maçã, segure este cálice; não sou bruxa e tampouco Judas! Poderia ser o Tadeu, mas esse é o bom, o amigo, o homem das causas impossíveis, conforme dizem as beatas. Repito, trago na mala doces e bolos especialmente designados a ti, meu bem. Já te vejo salivar... a saliva que transborda e sobe aos teus olhos brilhantes e gulosos. Pra quê tanto esforço? Eu já te disse... é só por hoje! Toma, segura este pedaço de bom caminho; acolha-o; sinta o cheiro que tanto hipnotiza um formigueiro inteiro e lança-o à boca, deixando-o esfacelar-se, quebrar-se entre os dentes, transformar-se em mel, lubrificar tua língua, glote, esôfago e tudo o mais que existe dentro de ti. Isso, muito bom... sorriso fácil, né? Feliz? Pois são apenas cinco contos de réis, obrigado! Esta nota que recebo das tuas mãos, estou já a colocar no meu bolso, vês? Um momento só; preciso levantar esta calça frouxa, de pano mole, suja e empoeirada de tanta estrada de piçarra. Agora aperto o cinto (uma casa a mais pra direita), pois as moedas já quase me fazem passar vergonha, já me querem nu. Se dou um passo, cliente, escuto o tilintar. Bom, até mais ver e não te esqueças: controlas essa tua diabetes! Não vá comer mais doce por aí! Meu nome? Ah, Caixeiro Viajante José Glico ou Zé Glico, ao seu dispor. Os mais íntimos me chamam de Glico Zé, mas há também quem me apelide por... Glicose.