À Venda

Os pés deslizam, viciados, procurando atrito no tecido da rede – coceirinha gostosa; dá vontade de gastar a manhã toda nessa liturgia prazerosa. Os dois fazem a escalada pela trabalhada renda branca; quase alcançam os punhos, e descem, descem pouco, já aliviados, procurando o aquecido abrigo dos lençóis.

Os olhos? Por ora, sonolentos e recém-despertos. Ó, belas oculares, ordeno que se abram para apreciar a vista intensa de uma serra enevoada e densa, de céu nublado – um mágico cinza escurecido a contrastar com o verde silvestre. Aqui, da varanda de uma simples casa, mas aconchegante lar, ainda se faz escutar, mesmo de longe, a torrente fluvial: um riacho pedregoso quebrado ao meio por uma imperiosa cascata – dez metros de queda. Água tão fria que atrofia! De lá, a trilha aquífera continua, arredia por definição, a se perder de vista, banhando terras – quisera fossem virgens ou quase virgens.

Se a coisa é narrar, digo que vejo, após atingir a outra margem do riacho (indica-se, com o olhar), o início de uma íngreme subida, repleta, por toda ela, de coqueiros e bananeiras. Daqui, me parece haver uma batalha entre aquelas árvores; uma disputa por espaço, por terra escura e por substrato. Passo então à contagem de cada exército, seu contingente, e, se dependo disso para estabelecer o vencedor, este seria a brigada dos coqueiros, infantes de primeira categoria, seculares guerreiros, a maioria. “Eis a nobre infantaria, das armas a rainha... por ti daria... a vida minha...”. Linda essa música, a Canção da Infantaria; ela me leva ao deleite quando paro, quando posso, para analisar o seu vocabulário e as suas rimas bem estruturadas. Me faz pensar na genialidade do seu autor, cujo nome, hoje, me foge à memória...  

[...]

Depois de um leve cochilo, sono pleno, rico em imagens de um passado recente e intenso, acordo e continuo a observar o tempo, sem qualquer pensamento, o que, para mim, é raro e confortável. Sobrevoo os vitoriosos coqueiros, as derrotadas bananeiras (as quais, no entanto, não perderam, sequer, uma só palha), e guio minhas pupilas ao topo do grave relevo, alcançando o céu, acinzentado, menos enevoado do que outrora. Mantenho minha ascensão obsessiva e chego às telhas que me cobrem: um teto sustentado pelas paredes que erguem a rede na qual descanso; na qual meu pé ainda desliza, livre e feliz... tanto quanto o seu dono.