Durante o dia, Blina caçava somente quando o céu enegrecia ou, à noite, quando as nuvens coravam, escarlates. Sua vestimenta era a única coisa em comum aos dois turnos: saia acinzentada, na altura dos magros joelhos quase leitosos de tão brancos, meia-calça escura e blusa vermelha, em tom fechado, gola rolê.
Naquele dia de fevereiro, a manhã nascera assim, nublada - ouvia-se o estrondo dos trovões e via-se o clarão dos raios ao largo. Tendo, desde cedo, notado o clima, preparou-se; abandonou a nudez e, com os olhos fechados e a respiração profunda, encarou o tempo pela janela recém-aberta, podendo, dessa forma, sentir a fria brisa no rosto e nos encaracolados fios de cabelo. Esperou o momento certo.
Minutos depois, vestida e parada abaixo da fronteira imposta pelos limites do seu telhado de barro, observou a água que, homogênea, rápida e galante, iniciava sua queda. Então deixou-se ir, altiva e atenta, com a mesma leveza e resignação que imagino ter um corpo que cai, propositadamente, do alto de um arranha-céu. Embora com a intensa pressão daqueles pingos que caíam, gélidos, sobre a sua face, Blina ousou, como sempre, desprotegida. Foi ela à caça, sem saber se aquele seria o seu dia.
Andou pelas ruas desertas observando as sacadas dos prédios baixos, as casas, os hotéis, os cafés e as entradas dos supermercados, tanto quanto as lojas de conveniência e o interior dos restaurantes, de gente apinhados. Arriscou-se pelos metrôs da cidade e pelas estações de trem, sempre ouvindo, a cada passo seu, o barulho da água borbulhando sob as suas sandálias de fivela prateada - minadas que estavam pelo líquido incolor que vinha do alto.
Ao final da tarde, quando pôde perceber o quão proveitoso fora o seu dia, caminhou em retorno à erma moradia. Na volta, ela trazia consigo quatro vítimas, duas em cada mão. Horas antes, vibrava, alegremente, quando enxergou a possibilidade de levar para casa um espécime azul claro, e, o mais raro deles, um colorido à la arco-íris.
De volta ao lar, isolada morada na periferia de Londres, bateu, borracha contra madeira, as solas das sandálias no assoalho da antiga varanda... e descalça ficou. Após adentrar à sala, deixou escorrer pelo piso de taco as gotas pluviais que caíam desde os cabelos ensopados até a ponta dos dedos dos pés, engelhados.
Ao abrir a porta do quarto (um imenso cubo de paredes cinzas) apreciou sua cama, bem fixa no centro do vão, coberta com limpos lençóis vermelhos. Ali, à entrada, e sem qualquer cerimônia, despejou o apurado do dia, acomodando-o aos milhares que ali já existia. Preparava-se para a primavera...
Essa era, durante o inverno, a vida de Neblina - a picaresca proprietária do mundo paralelo das sombrinhas.