Juazeiro do Norte, Ceará, 13/12/2012
De tão cansado, deitei naqueles bancos de três lugares meio acolchoados. Estou no aeroporto da cidade de Juazeiro do Norte, sertão do Cariri cearense, um verdadeiro oásis verde no meio dessa severa seca de 2012. Paraíso verde que deixa roxos de inveja seus vizinhos caririenses da Paraíba, esta, assolada por uma cruel estiagem e escaldada por um sol e por um mormaço que, nessas idas de dezembro, ao meio dia, tremulam o horizonte com quase quarenta e cinco graus Celsius. Uma sensação inquietante aquela! Nunca vivi numa panela de pressão, mas posso imaginar que o desconforto é comparável.
Permita-me, portanto, explicar melhor esta minha mais recente viagem à trabalho, um cansativo percurso repleto de nordestinidade. Cheguei à João Pessoa ontem, num vôo partido de Fortaleza, capital alencarina, o qual, somente depois de ter passado por Recife e por Salvador, retornou ao território de Elba e Zé Ramalho, cruzando fronteiras e aterrissando em solo pessoense na madrugada. Depois de uma péssima noite de pouco sono, fui ainda surpreendido (durante o café-da-manhã no JR Hotel, centro de JP) por uma apresentação chorosa do Corínthians que, em terras japas, sofria, esfomeado, magro, raquítico, para estabelecer um (e apenas um) tento contra o time árabe chamado Al Lalalalá.
De lá, pra rimar, cortei, sertanejo que nunca fui, as terras daquele Estado, indo, quase de ponta a ponta, desde a capital, no litoral, até Bozó de Dentro, local onde fiz uma palestra sobre linhas de financiamento voltada a um público pouco interessado (na minha fala), porém muito ansioso pelo jantar servido ao final da apresentação. Durante aquele longo dia de viagem, em 12/12/12 (por sinal, data de início para o fim do mundo segundo as civilizações inca, maia, asteca, fenícia, venusiana e o caralho à quatro), cruzei, na companhia de dois colegas paraibanos, aquela cinza, empoeirada e infértil terra sofrida. Passei por cidades históricas, dirigindo ao largo de Taperoá – fazenda notabilizada pelo grande Ariano Suassuna, na qual ele se refugiou, junto de sua família, das perseguições políticas de antigamente. Também desviamos o caminho duas vezes, ambas para fugir dos enfretamentos e das foices do Movimento Sem Terra (MST).
Após muito suor (já à noite, em Bozó, durante a explanação para as quarenta pessoas que me olhavam, metade impressionada, metade ansiosa pelo fim), desloquei-me para outro hotel, agora o sucateado Brejo dos Padres, um “balneário” (o cacete!) com piscinas de águas termais – em que pese, a essa altura, a indagação do leitor no que diz respeito ao motivo pelo qual me hospedei em lugar cercado de água termal. Dúvida pertinente, concordo; principalmente quando paro pra pensar que eu havia antes lutado, o dia inteiro, contra um calor miserável e que estava, até aquelas vinte e duas horas, grudento por baixo de uma blusa de mangas compridas, comprada na Primark, meses atrás, quando os termômetros marcavam nada mais que quinze graus no centro de Londres. Bela recordação!
Em minha análise sarcástica (pelo menos, a mim soava assim), imaginei que as águas do brejo eram termais porque o inferno era logo ali abaixo – apenas metros abaixo do solo. Isso explicava a razão de não apenas a água das piscinas estarem mornas, quentes mesmo, mas também tudo o que saía da torneira da pia e do chuveiro. Ah, Brejo dos Padres, seria essa a explicação para o teu sucateamento? Seria esse o motivo do ar-condicionado que não resfria, só ventila? Paguei, por sinal, uma diária cara por uma água quente que eu queria fria.
Bom, respondendo à indagação que eu mesmo me fiz, como se você, leitor, o tivesse feito, digo que só ali fiquei, pois não havia, em toda a Cajazeiras (cidade bem maior, e próxima àquela), uma só vaga de hotel disponível por conta de um vestibular agendado para essas datas. Droga de vestibular! De qualquer forma, nem mesmo isso importava! Tratei, logo que fiz o meu check in naquele hotel efervescente, de reservar um táxi para as duas da matina do dia seguinte, horário em que eu de fato deixei Bozó de Dentro na direção da virtuosa Cajazeiras, de onde, de ônibus, vim pra cá, Juazeiro do Norte, o oásis verde no meio do sertão do Cariri. E logo que cheguei aqui, às sete da manhã, que beleza, vi um céu nublado e senti um ventinho ameno (provocando até frio), o que me obrigou a vestir, por cima da camisa de gola pólo (que eu ainda estou a usar), aquela outra, de mangas compridas, adquirida além-mar, utilizada algumas horas antes.
Pois cá estou, desde o início da manhã, neste minúsculo aeroporto, esperando meu vôo que deverá partir às quatorze e quinze. Já em pé fiquei; já levantei, fui ao banheiro (utilizei a cabine para portadores de necessidades especiais, única que oferecia o serviço da duchinha, equipamento imprescindível a quem não costuma usar papel higiênico – me perdoem); já conversei com uma paulistana de nome Natália que, simpática, ofereceu-me alguns diálogos sobre viagens e sobre o quão rápida seria sua chegada em São Paulo... “quando eu estiver chegando lá, você ainda estará aqui... são apenas três horas e a aeronave já está no solo”. “Obrigado, você é ótima”, eu resmunguei, irônico.
A moça, até bonita ela, confessou estar trabalhando em Tarrafas, cerca de três horas daqui. Deu-me uma vontade de perguntar-lhe a razão de trabalhar naquele fim de mundo, contudo, resolvi não levar à frente essa idéia. De todo modo, como se adivinhasse a pergunta formada nas minhas entranhas encefálicas e, a partir daí, tomada de um sentimento bairrista pela pequena Tarrafas, a moça desferiu um “não gosto de Fortaleza”. Assim, sem mais nem menos. Se eu soubesse, teria mesmo dito (balançando o pezinho apoiado no joelho e levando o dedo indicador à sua cara) algo como “o que tu estás a fazer aqui, animal?”. Mas eu não sabia e àquilo reagi, naturalmente sem demonstrar, como se uma faca (ok, uma peixeira ou uma foice do MST) estivesse cortando a minha barriga e expondo os meus fatos arraigadamente apaixonados por tudo quanto é inerente à capital do meu Estado – notadamente pelo vatapá do Cantinho do Frango.
O pior é que testemunho daquela estirpe eu já havia escutado, ontem, de um daqueles colegas de trabalho que me acompanhavam pela aventura sertaneja, na estrada, em meio ao calor paraibano: “acho Fortaleza bastante superficial”. Olha, vá se foder! Obviamente não falei isso, mas, me entenda, vontade não me faltou, apesar de que gosto bastante do Ripardo, o autor da frase, um grande empreendedor, dono da melhor sauna de João Pessoa.
De todo modo, eu os convidei, tanto Natália, quanto o Ripardo, para uma visita, tão logo seja possível, à minha amada Fortaleza. Vou tentar lhes tirar essa má impressão que têm da cidade! Vou agora ao balcão da operadora fazer o check in – a fila já se amontoa e sinto muitas saudades da terrinha e da minha bela esposa.