Vitória de Samotrácia - Parte II

[...] Una mas sangría, por favor – soletrei, lentamente, cada uma dessas palavras, dando ao garçom a possibilidade de uma leitura labial, mesmo à distância (aquela era a minha primeira noite em Barcelona e, solitário, entrei, por indicação de um funcionário do metrô, na "Tarantos", uma famigerada casa de espetáculos local, apenas intentando presenciar uma apresentação flamenca. Nada mais que isso...). Quando, já inebriado e recebendo uma nova taça de bebida das mãos do atendente que, habilidosamente, curvava-se a fim de não atrapalhar a visão dos demais espectadores amontoados por detrás de minha pessoa, me vem outro sorriso, harmoniosamente desenhado por aquela boca vermelha (no mesmo tom do justo vestido), seguido de um olhar, direto e profundo. Mais uns passos à frente, projetando-se bem próxima de mim, coisa de metro e meio, e mais um sorriso, discreto, sério e, ao mesmo tempo, contraditoriamente convidativo. Então, mistos de certeza e dúvida, de compenetração e insanidade, de razão e paixão, me controlavam, potencializados pelo álcool da sangría. E quanto mais a peça flamenca se desenrolava, mais eu tinha a convicção de que aquelas sensações eram recíprocas [...]