A Penteadeira

[Desfeita... há uma semana]

Uma penteadeira de mogno africano era a minha maior riqueza, um ouro esverdeado! Tentei fotografá-la de um ângulo bonito e, ajustando as cores, testando os filtros, optei pelo monocromático, dando a ela, a arte em madeira, um ar nostálgico. Mas ainda não foi como eu queria... eu queria ver um outro efeito, uma diferente sensação, a mesma que tenho quando observo a foto de outrem, simplesmente por ser de outro. A reflexão dessa análise de segundos, enquanto dava-me conta de que a imagem captada não atendia às expectativas, pelo menos as minhas, levou-me a crer que não sou bom, não tanto assim, e abandonei a antiga penteadeira ao próprio destino, à própria mortalidade, tão comum aos velhos móveis, raros. As ranhuras naquele mogno eram marcas do tempo, eram registros de tantos que ali já sentaram, enfeitaram, choraram, riram, só olharam, se olharam. E eu, nada talentoso, por que não consegui esse registro? Por que não captei essas sensações, dando a ela, magnífica, sua merecida imortalidade? Minha maior riqueza, o ouro verde do mogno da penteadeira, está fadada à desfeita. E assim a deixo, a esqueço, mas antes, porém, como um humilde presente de um pobretão, mais como uma prova de gratidão, revelo a foto e gentilmente a posiciono na sobra existente entre o espelho e o nobre suporte africano que o prende. Feito isso, fui a um renomado antiquário... deixei o artigo em consignação...  

[Completude... ontem]

Recebi uma carta do Praxedes, o dono do antiquário: “não consegui vender a penteadeira, apenas a foto”.