A virose me derrubou! Ah sim, derrubou, e como diria uma grande e antiga amiga, derrubou com gosto de toddy. Teve início na madrugada de sábado e somente se foi na manhã de domingo, porém, deixando a herança da dor no corpo e da sensação febril. E foi dessa forma que eu vi passar quase todo o final de semana: da cama pro banheiro e do banheiro pra cama, perdendo momentos, comendo sopa instantânea, praguejando o meu tormento, amaldiçoando a minha insônia.
Contudo, o mais interessante é que fui parar no hospital na tarde do domingo, mas não pelo meu estado e sim pelo do meu irmão que sentia-se tonto e suava bicas. Fui seu acompanhante, primeiramente na emergência do Hospital Regional da Unimed, praticamente um SUS particular, do qual desistimos logo depois de vinte minutos, dirigindo-nos, então, para o Hospital São Carlos, não menos lotado, mas certamente melhor freqüentado. Durante todo esse itinerário, desde a saída de casa até o retorno ao lar, tivemos a companhia da nossa doce e nervosa mãe, quem, por sinal, não parava de justificar aquele mal estar como resultado da teimosia do meu irmão em continuar comendo porcaria na rua – tivemos uma verdadeira aula de medicina, básica e alternativa, nunca pensando eu, na minha completa desinformação, que minha genitora tornara-se uma louvada médica com pós-doutorado no exterior e especialização em otorrinolaringologia, cardiologia, dermatologia, psiquiatria, traumatologia e clínica geral, além de ginecologia e obstetrícia, em que pese o fato de que os conhecimentos dessa última residência ela não precisou utilizar para o diagnóstico do tonto e suado caçula.
Pra não falar que o final de semana foi um desastre total, pelo menos posso dizer que finalizei a tarde do domingo com dois importantes entendimentos. O primeiro deles é relacionado ao funcionamento das emergências e como esse funcionamento está ligado à saúde dos pacientes. É assim, você vai doente e demora tanto pra ser atendido que acaba melhorando e vai pra casa sem o desejado atendimento. Em resumo, se você não estiver morrendo, meu amigo, tome um bom banho, um chá de boldo e se deite porque, mais cedo ou mais tarde, o seu mal estar e a sua dor vão passar. E se demorar muito a passar, ainda assim será antes do seu atendimento, caso tivesse decidido ir à emergência. O segundo entendimento, que vou aqui chamar de revelação, é sobre a expressão “torcedor doente”. Imagine que na emergência da nossa segunda opção, o Hospital São Carlos, estava eu encostado na parede (porque poltronas não tinha mais), imediatamente atrás de um rapaz com uma expressão bem sorumbática – o cara praticamente arquejava, sentado numa cadeira de rodas. Na nossa frente, no alto, quase no teto, estavam posicionadas duas televisões: uma que mostrava as senhas para o atendimento e a outra que reproduzia o jogo Fortaleza x Horizonte, pela última rodada classificatória do campeonato cearense de futebol, se é que aquilo pode ser chamado de futebol. Em determinado momento, para aumentar o meu desconforto em estar ali, o Fortaleza marcou 1 x 0 no Horizonte. Pois não é que, naquele momento, o taciturno do “doente” abriu um vasto sorriso e levantou os dois braços, quase se erguendo da cadeira e, por muito pouco, não gritou “gol”! Minha maior vontade era dar um tapa (com força, claro) nas costas do infeliz e perguntar: “tu não tava doente, macho?”.