O Retorno de Branca

Branca me viu e seus olhos brilharam, mesmo depois de anos. Quantos anos... acho que dezoito primaveras, ou melhor, verões, se passaram desde que nos conhecemos na fila do Cine São Luiz, em frente à Praça do Ferreira, no coração da cidade. Ela, olho claro, cabelos castanhos bem lisos, pele alva e corpo de uma adolescente de treze anos. Eu... bom... apenas um ano mais velho. Mas a questão é que eu fui reconhecido e, numa fração de segundos, enquanto ela se deslocava em minha direção, lembrei das antigas cartas e das ligações telefônicas para as quais eu costumava dizer baixinho pra minha mãe: “fala que não estou”. Lembrei dos seus planos sobre estudar na Escola Técnica, mesmo já cursando a sétima série do Colégio Sete de Setembro e pensei na dificuldade que eu sempre impusera aos nossos encontros – tudo porque eu tinha que pegar um, e apenas um, ônibus. Também recordei de quando terminamos o nosso namoro de quase quatro meses. É... e o motivo? Hein? Hum, o motivo foi a proximidade do Dia dos Namorados. Exatamente! Eu não queria comprar presente e, muito menos, receber aquelas coisinhas enfeitadas, cheias de colagens e de declarações, por mim, não compartilhadas. Eu era assim! ERA, com letras bem garrafais. Mas hoje eu sou o completo oposto, afeito a relacionamentos duradouros, uma pessoa disponível e empenhada em fazer dar certo e, o melhor, solteiro. Pois bem, e é esse novo EU quem tem Branca a somente um metro. Tá certo, vai, dois metros e meio... mas se aproximando. Exceto pelo corpanzil de agora, ela continua a mesma: olho claro, cabelos castanhos bem lisos, pele alva... linda.

Enquanto pensava em tudo isso, enquanto eu via e internalizava todas essas belas características, ela passou por mim e abraçou, por cerca de trinta longos segundos, alguém que estava posicionado alguns lugares atrás, naquela fila de cinema onde eu também me encontrava. Bom filme pra você também, eu pensei.