Disco Rígido

Poucas músicas me trazem tanta paz de espírito e um sentimento de nostalgia tão particular quanto “Bem Que Se Quis” da Marisa Monte e “Vitoriosa” do Ivan Lins. Certamente, são duas canções que não fazem parte da minha playlist de rotina, contudo, basta ouvi-las na rádio do carro para iniciar o meu transporte mental ao picadeiro das lembranças que eu não sei onde fica, mas é tão bom.

“Bem Que Se Quis” me apresenta a imagem de um gramado ensolarado ladeando uma piscina de águas límpidas, em cujas bordas descansam ricas cadeiras de sol, tudo envolto num clima agradável que não permite transpirar e nem sentir frio. É um cenário bem burguês mesmo, eu confesso, porém, não há qualquer outra coisa além desses objetos. Tenho a impressão de que essa cena, na realidade, é uma que presenciei, quando criança (cerca de nove anos), ao assistir um capítulo de o “Salvador da Pátria”. É capaz, bem capaz, aliás, é certo, de eu ter associado essa imagem a algo que proporciona paz e tranquilidade, ligado, psicologicamente, àquela canção que, listada na trilha sonora daquela tele-novela, deveria estar sendo reproduzida no instante do descrito panorama.

A segunda música, “Vitoriosa”, lembra viagem, estrada, vento no rosto e... saudade. Um dia visitei minha única tia que, depois de casada, mudou-se para Parnamirim, cidade situada na região metropolitana de Natal (RN). Logo depois de seu casamento, a tia Mana (abreviatura de Germana) levou consigo, na mudança, minha babá, a “Bastiana” ou “Basti” – forma como eu, carinhosamente, apelidava a Sebastiana. A Basti era, no meu imaginário infantil, alguma coisa sobrenatural: era engraçada, amiga, uma verdadeira heroína – o que, para uma criança, com poucos amigos da mesma idade, era uma dádiva e gerava uma afeição e uma empatia ímpares.


Pois a “Bastiana” foi-se com a tia Mana para ajudar nos cuidados de um novo lar e na preparação de uma nova família. Depois de um período, talvez um ano, fui à Parnamirim, de ônibus, no intuito de visitar tanto a tia quanto a babá. Aquele final de semana passou voando, amigo... e acho que aquela fora a primeira vez que um sentimento de perda se apropriou de mim. A minha partida daquela cidade, quando voltei pra cá, Fortaleza, me marcou de maneira singular. Tenho uma memória esfumaçada, na qual, estava eu, sentado na poltrona do veículo, em companhia da minha avó, e segurando o choro, enquanto via a “Basti” acenando, pelo lado de fora, no trevo (local onde subíamos no ônibus, segunda parada para quem vinha da rodoviária de Natal). Sinceramente, não entendo porque lembro de tudo isso quando escuto “Vitoriosa”... não acredito que o ônibus possuía sistema de som... mistérios do inconsciente!