Breve Ensaio Sobre a Raiva

A raiva nasce por dentro, é nutrida diariamente e contida por anos, décadas, até vidas. Contudo, de súbito, certo dia, por motivo banal, que não justifica, o curto pavio (a gota serena) pode ser incendiado o suficiente para se expandir e subjugar aqueles que ainda dormem, inócuos, controlando suas respectivas fúrias, aprisionadas. A raiva, ensaio, não é congênita, mas contagia. A depender do resultado do seu uso, vicia, e tem ação controladora sobre quem a utiliza, asfixia. Se não é arrancada pela raiz, desde o primeiro impulso, domina e cresce, tornando-se potente mania. Ela cai em pé, não dorme e age em forma de pesadelo, enquanto pensamos que dormimos. Fria, calculista e arrogante, a raiva cala, silencia e trafica o ódio em troca de tudo quanto lhe sacia, a dor, a obediência, a covardia. Se não morta, mata.