O Canário de Garras

Sentado numa espreguiçadeira, estendi o dedo indicador na direção do céu e esperei alguns segundos com os olhos fechados. Eu estava tenso e os olhos, embora fechados, sofriam pequenos espasmos em conseqüência dos reflexos do porvir. Era iminente o que estava para acontecer e eu sabia a razão: minutos antes, uma moça bonita, mas sem rosto, disse-me “estenda o dedo que ele virá”. Logo mais, um pequeno canário pousou em meu dedo causando muita dor, já que fincava suas finas garras ao tempo em que bicava minha mão durante todo o tempo. Não era uma dor absurda, mas, sem dúvida, incomodava e eu ainda sustentei aquela situação durante muito tempo. Por vezes, eu abria um dos olhos enquanto franzia a testa e a sobrancelha por conta da dor. A moça sem rosto continuava ali, olhando, rindo-se da cena e da minha angústia. Repentinamente, houve uma distração e ela precisou se ausentar, deixando-me a sós com o pequeno pássaro. Não pensei duas vezes, tentei tirá-lo do meu dedo, porém ele, frenético, fincava ainda mais forte as garras na minha pele. De tanto tentar, acabei por torcer seu frágil pescoço e escondi seu corpo de quem não tinha face. Levantei e fui embora, olhando os pequeninos furos na pele.