Ispilicute

Um amigo me trouxe, havia prometido desde ontem, um versículo de uma coleção sobre os aviões da Segunda Guerra Mundial, alguma dessas promoções para assinantes de jornais. Não sou incentivador de conflitos bélicos, pelo contrário... no entanto, vejo a SG muito mais como um fato histórico de grandes proporções do que propriamente, e unicamente, como uma guerra. Tanto pelas conseqüências geradas pelo seu fim (Guerra Fria, corrida armamentista, pesquisa espacial, e, extrapolando tudo, o aparelhamento terrorista) quanto pela quantidade de personagens dos quadrinhos criados a partir dela (Hellboy, Capitão América, Wolverine, Dr. Manhattan etc), sem falar dos filmes e dos seriados (Império do Sol, Resgate do Soldado Ryan, O Pianista, Band of Brothers etc). Ora, mesmo se não houvesse todo esse número de fatos a ela associado, ainda assim a veria com olhos diferenciados por conta, tão somente, do romantismo e dos ideais contidos naqueles primeiros anos de década de 40. Cresci atento às estórias dos bombardeiros que aterrissavam na Base Aérea de Fortaleza, trampolim que era às bases no norte da África e no sul da Itália. Escutei, e muito, sobre as famosas garotas Coca-Cola da alta sociedade local que, aos finais de semana, se aprontavam e se perfumavam para os passeios com o intuito de paquerar os pilotos ianques. Por causa desses passeios e dessas paqueras internacionais é que, desde aqueles tempos, a língua portuguesa e, em especial, o “cearês”, ganhou mais um vocábulo: ispilicute. Chamamos (já quase em desuso, é verdade) de “ispilicutes” as meninas bonitas (ou lindas) que tem aquele jeito meigo e gracioso de falar. Todavia, a maioria das pessoas que chama, chama sem conhecer a sua origem. E é simples, ispilicute é a junção de duas palavras da língua inglesa, Pretty e Cute, que eram utilizadas pelos garbosos pilotos americanos quando se referiam às meninas fortalezenses da época. Agora é até engraçado pensar num típico militar estrangeirão, de óculos de sol e trajando jaqueta de couro escuro com gola felpuda clara, a expressar, todo dono de si: “she is pretty cute”. É fácil imaginar como a despreparada e monolíngüe sociedade de outrora conseguiu transformar “she is pretty cute” em “ispilicute”.