Aos Incentivos de Redfield - Parte VI

[...] O manso balançar do carro, a batida seca da porta e as felizes gargalhadas me livraram da leve dormência. Desnorteado, foquei a vista na direção dos bancos dianteiros e me apercebera de que, com a chegada dos mais novos amantes da Terra, o final daquele pesadelo estava próximo. Também pude constatar o que acontece a uma calça jeans quando nela se misturam água, sal e areia, mas, contudo, eu parecia ser o único incomodado com aquela sensação pegajosa a qual eu nem mesmo sentia, apenas imaginava por meio de um reflexo dos sentidos. Quando dei por mim, o veículo já tomava a direção de casa e, no caminho, ainda foi possível presenciar afagos e demonstrações de carinho típicos de um casal enamorado (e pensar que nunca mais aqueles dois se viram na vida), além de constatar que, uma ou outra vez, minha existência era percebida e, quando assim, uma qualquer boba pergunta me era dirigida. Elane dormira pesadamente toda a volta e somente acordara com a chegada em sua residência. Logo em seguida, fora a vez da Vanessa. Naquele instante, após seu centésimo décimo beijo na boca do Bruno, eu sentara em seu trono, o banco dianteiro – depois de livrá-lo do tapete de superfície suja que, até então, o protegia dos resquícios da praia. Quando o automóvel mais uma vez se deslocou, um sentimento de alívio pairou no ambiente. Confortável, eu sabia que ali não mais existia um concorrente, mas o amigo de sempre. Depois de alguns minutos, já que não havia trânsito às sete da manhã de sábado, parávamos na entrada do meu prédio e eu, enfim, estava livre para as carícias da cama e do lençol.

- Valeu, cara! Muito boa a noite (falei, em tom de despedida, bem disfarçando o meu descontentamento com aquele resultado final).
- Ei, Igor, espera um pouco... tenho uma coisa aqui que acho que você vai gostar (ele emendou em tom amigável).
- Tô morto, bicho. O que é, hein? Outra banda, é?
- Não, porra. Pega aí no porta-luvas. Vale muito a pena! É a tua cara! E não tem pressa pra devolver, viu.

Ao abrir o compartimento indicado, eis que estava lá, vistosamente descansado sobre alguns documentos, um exemplar de “A Profecia Celestina” de James Redfield.