[...] Em pé, aos gritos de clamor à procura do porteiro, Bruno se desesperava por não obter uma resposta que deveria vir de dentro dos muros do condomínio. E eu, lá do conforto do banco traseiro, com sarcasmo me deleitava ao vê-lo, pela primeira vez nas últimas oito horas, angustiado. Que maldade, balbuciei em quase silêncio! “Não tem ninguém”, resmungou ao voltar para o volante e engatar a marcha-ré. “Se não tem outro jeito, vamos banhar no mar”, foi o que disse esperando uma palavra de apoio que, certamente... veio. Era o fim do meu sarcasmo e, mais uma vez, o placar marcava, em paralelo, mais um ponto para o amigo e menos um pra mim. Dali à praia era um pulo!
No carro, então já posicionado à beira da areia fofa (até onde ia o calçamento torto), estava eu a observar, pasmo, o mergulho dos dois, de roupas e tudo, sobre a primeira onda que alcançavam. Ao emergir, como que por convenção, o primeiro de uns cem beijos foi provado. Naquele instante, eu já havia abandonado qualquer boa referência à publicação de Redfield, afinal, o tiro saíra pela culatra, minha energia havia sido roubada, toda, totalmente extraída e até o que sobrara fora furtado com o primeiro dos cem beijos. Indignada com a inércia que se encontrava no interior do automóvel, minha companheira de desilusões já dormia, na parte esquerda que lhe cabia, com a cabeça encostada no vidro. Ninguém via, mas eu tratei de traçar, desde o início, uma linha imaginária, um verdadeiro Greenwich ou Equador, que separava o seu do meu lado – para não gerar qualquer expectativa, dentre outros motivos. Ela finalmente entendera e, sem apelação, dormira. E eu, também sonolento, esperava ansiosamente o retorno dos dois que, com água na altura dos bustos, naturalmente não mais sabiam diferenciar sal e saliva [...]