O Velho Homem do Mar

Não estou certo de onde ele saía. Só lembro que a visão se iniciava com o homem caminhando, sobre a areia da deserta praia, como se tivesse saído das águas ou de alguma embarcação ancorada... não era uma figura assustadora, pelo contrário, era um simpático senhor que trazia em suas feições as marcas da idade, potencializadas pelo sal e pelo sol. Parecia triste ou então a máscara do sofrimento encobria, vai saber, a doce sensação do dever cumprido. Tinha uma pele fina e de cor encarnada... falava espanhol em voz calma e mansa. Ao passar por mim, balbuciou “buenos dias”. Eu não respondi (apesar de querer e muito...). Olhar baixo que, mesmo assim, permitiu transparecer a sabedoria que certamente não era calcada em anos de estudo formal, mas em anos de luta cotidiana, dura rotina de um lobo do mar. O clima naquele momento era quente, porém a brisa fresca escamoteava a sensação térmica, para menos. A vista da praia parecia a imagem da cena final do filme “Um Sonho de Liberdade” – Morgan Freeman e Tim Robins envolvidos num fraternal abraço. Enquanto olhava o velho se distanciar, me distraí com as cócegas provocadas pela força do vento que guiava a areia fina direto na minha canela. Com as mãos, cocei as pernas para amenizar a sensação da gastura gerada. Voltei a levantar a cabeça procurando o homem que já deveria estar longe, mas, àquela altura, já havia perdido o velho de vista e acordei. Acabara de passar, acredito, pelo estágio 1 do sono NREM, caracterizado por sensações de vagueio, pensamentos incertos, contrações repentinas das mãos e dos pés e dilatação pupilar. Nesse estágio, a atividade onírica (do grego oneiros, que significa sonho) está sempre relacionada com acontecimentos vividos recentemente. Coincidência eu ter estado em Canoa Quebrada nesse último final de semana...