Seu Laélio

– Como é o nome do senhor?
– Laélio. Mas não me chame de “senhor”. Vão pensar que sou velho e só tenho 63 anos!

Foi o que me disse um simpático senhor (quer dizer, foi o que me disse o Laélio) na manhã do último sábado, quando, na recepção da oficina da Peugeot, esperávamos o conserto do nosso carro. Tudo começou quando a televisão do room apresentava uma matéria de jornal falando de mais uma internação da Amy Winehouse por dependência química... na matéria, a jornalista citava que no recente show realizado no Brasil ela estava “meio bêbada”. Laélio, em pé, com um copo descartável com água, emendou: meio bêbada? E eu completei: ela estava completamente bêbada! Foi o suficiente para meu novo amigo sentar-se ao meu lado e iniciar 40 minutos de diálogo (que diga, monólogo) sobre sua vida cheia de experiências! Atento que sou a quem tem algo a ensinar, desliguei o note e fiquei apreciando e tentando memorizar cada palavra. “Todos nós somos arrogantes... com o tempo, a gente vai baixando a crista e aprendendo a ser humilde. Tudo na vida é bom senso”. Laélio é cria de Mauriti, município situado na região do Cariri cearense... logo jovem, perdeu seu pai, morto por intrigas políticas. Assim, desde cedo, ele teve que aprender a se virar sozinho e, claro, veio tentar a sorte em Fortaleza, cidade com maiores oportunidades. Procurou alguns conhecidos da família, sem se identificar (“eu não queria gerar nepotismo”), e iniciou sua carreira na Secretaria da Fazenda, hábil datilógrafo que era, apesar de só utilizar os dois dedos indicadores. Posteriormente, tornou-se fazendário, graças à aprovação em concurso público e, anos depois, voltou a prestar concurso, dessa vez para a Caixa Econômica Federal, onde se aposentou. Observando esse tipo de coisa, vejo como a vida é mesmo rica em personagens... ah se eu pudesse filtrar o que há de melhor em cada pessoa com a qual converso e, imediatamente, por osmose, tornar aquele conhecimento meu... seria um Super-Homem. Ou, quem sabe, o maior dos inexperientes... dizem que o aprendizado se enraíza quando vem da derrota, gerando, assim, a glória de chorar (já disse o Marcelo Camelo). Repentinamente, a consultora me chamou: Valdir, seu carro está pronto. Olhei para o Laélio e, apertando sua mão, disse: foi um prazer conhecer o Senhor. Foi quando percebi que deixei novamente escapar o “senhor”.