Sou Milto Poeteiro, natural da zona rural de Bozó de Dentro, observador e curioso de nascença, coisa que herdei de minha querida mãe. O povo daqui diz que sou poeta de nada e poeteiro de tudo. Nunca entendi a razão disso, mas, desde que ouvi esse comentário pela primeira vez, passei a adotar essa frase como uma apresentação minha no meu programa na Rádio Comunitária Única, única da cidade, onde trabalho contando causos e recitando poesias. Quando falo “trabalho” é só mesmo modo de dizer, já que nada ganho, não tem pagamento. Pra não dizer de novo que ganho nada, meu pagamento é só mesmo o prestígio entre os habitantes de Bozó, pois noto, quando caminho na rua, que olham pra mim com um sorriso engraçado que, se eu não estivesse certo sobre meu talento nato, poderia até achar que era gozação ou sarcasmo. Mas como poderia ser gozo ou qualquer outra coisa negativa? Pergunto, pois levo em conta a minha habilidade quando o assunto é recitar, modéstia à parte. Acredito que isso é unanimidade! Para ninguém falar que é balela, que falo demais em causa própria, escrevo, abaixo, minha última poesia, escrita há pouco, como prova da minha capacidade plena de transformar a observação em versos de alta qualidade:
Uma ilha tem semelhança
Com um ovo estrelado
Pois este é uma porção de gema
Cercada de clara por todo lado