Nunca imaginei, nem mesmo em meus clássicos momentos de embriaguez, que teria a oportunidade de viver no estrangeiro. Não que esse fosse um grande sonho. Na verdade, até era, contudo, o conforto de casa e a crescente dependência dos pais, aliados ao temor de perder o contato com os poucos e bons amigos, me permitiam apagar, com o balançar das mãos, a nuvem de aventura que vez por outra se fazia presente em meus singulares pensamentos. Não posso mentir às reflexões e excluir dessa lista o meu antiquado medo pelo novo, pelos desafios e pela provável frustração das expectativas (inclusive as minhas). Por conta desses receios e de tantos outros que pairam pelo mundo, fui incapaz de seguir, em 2000, para a Escola Preparatória de Cadetes do Exército, em Campinas, São Paulo, após ter logrado êxito naquele concorrido concurso. Até hoje, mantenho sob segredo a tal conquista, mormente em relação ao meu avô materno, exuberante oficial da reserva do Exército Brasileiro, cuja aspiração maior, estou certo, era enxergar o neto em traje verde-oliva. Naqueles dias, eu, aluno do Colégio Militar de Fortaleza, fora surpreendido pelo meu monitor – o Sargento Penaforte, se bem lembro – a parabenizar-me pela aprovação, à entrada da Casa de Eudoro Corrêa e às barbas do Capitão Ribeiro, meu avô. Na hora, desconcertado, praticamente interrompi a fala do eufórico sargento e esclareci, no auge da falsidade, que aquele Ribeiro aprovado pertencia à turma do segundo ano e não à do terceiro, meu caso. A minha reação se fez, instantaneamente, realidade incorruptível aos olhos do meu querido Capitão Ribeiro que, não sei exatamente por qual motivo, julgava minha inteligência incapaz de tal façanha. Como acreditar que eu, na humildade dos meus 16 anos, teria sido aprovado e tornar-me-ia, em meia década, o mais novo oficial de carreira do Exército do Brasil? Se nem mesmo creditava fé na minha aprovação para a quinta série do Colégio Militar, poderia ele crer em tão poderosa vitória? Seria pedir muito, presumo. O fato é que essa imatura desistência nunca esteve listada no meu rol de arrependimentos, apesar dos estalos da minha intuição sobre o bom militar que eu seria. Mas voltando à realidade do presente, não me causa a menor estranheza relembrar todo esse passado recente no exato momento em que sobrevôo os arredores de Atenas. Recordar é preciso, quanto mais se essa recordação é a sincera fotografia de toda a personalidade que me acompanhou até ontem. Quem me viu, quem me vê, penso comigo! E quem diria que o poeta transformar-se-ia em meu confidente amigo, a compartilhar delírios e imagens sobre o que seria a minha Pasárgada imaginária, hoje bem mais real do que trasanteontem, quando eu ainda teimava em não acreditar. Fui-me embora pra Pasárgada, Manuel. E esta é só minha!