O constrangimento do silêncio é observado entre dois corpos. Zero intimidade. Indagações sobre o tempo e sobre a última notícia do telejornal (desgraça, é claro). Largada para a busca da próxima pergunta que teima em não vir. Ambos tentam abordar. Angústia. De repente uma pergunta – alívio momentâneo – e mais trinta segundos de conversa. Novamente, as vozes silenciam e, agora, só o barulho dos talheres na louça. Os olhares evitam se encontrar... não há conversa, não há assunto. Inútil tentativa de reaver a grandeza daqueles dias quentes. Desgaste. Por que? Qual o motivo dessa insistência? O medo de perder? Mas o que perder, quando mais nada se tem? Ah, ainda há a saudade da felicidade. Ainda existe uma caixa cheia de recordações, de mãos dadas, de cheiros, de abraços, de Almodóvar e de Woody Allen. Pois é... essa caixa de pandora está aberta e deve ser lacrada. Mas lacrar é tão triste, a alma parece ser sugada. Um vácuo no estômago. E essa emoção que não desiste! Não desiste de irracional, pois está aqui a prova inequívoca do fim: não tem conversa, não tem assunto. Não mais. E isso deveria ser o mínimo. Resta o silêncio constrangedor. Foi o que sobrou.