O Colégio Militar (por Rachel)

"Quem conhece a topografia de Fortaleza sabe que o Colégio Militar e o Colégio das Irmãs ficavam ao longo da mesma rua, no antigo bairro do Outeiro (...) Poucas quadras separavam um colégio do outro, sendo que o Militar ficava para o fim da linha, então. Hoje, não há mais bonde, parece que as ruas estreitaram. (...) Nas tardes de sábado, os rapazes ocupavam em massa o bonde das três horas, aquele mesmo que tomaríamos à saída do nosso Colégio. E quando o bonde parava à porta da Santa Gaiola e nós, da calçada, avançávamos para ele com a maior distinção possível, fingindo ignorar que o veículo já nos alcançava, lotado pelos alunos (nós só os chamávamos assim, "os alunos"), dava-se uma maravilhosa revoada de calças garança e gandolas caquis, desabando do bonde e saltando no calçamento: era um movimento sincronizado, um salto de ginastas, e ficavam ao nosso dispor os bancos livres, totalmente vazios. Nós, então, subíamos o mais graciosamente. (...) Ocupávamos pausadamente os bancos envernizados, ignorando os tintins frenéticos do condutor; e então havia outra revoada de rapazes, dessa vez para o alto, que em novo salto atlético ocupavam os estribos, pingentes quase alados, cada um procurando exibir mais leve destreza. (...) depois que nos viam sentadas, os mais ousados nos cumprimentavam com uma continência e o nosso coração batia de saltar!"


Rachel de Queiroz (fragmento de texto retirado do Livro "O Casarão do Outeiro").