A Padaria Espiritual

No final do século XIX, um grupo de notáveis cearenses deu origem à Padaria Espiritual, uma “Agremiação de Rapazes e Letras” idealizada num famoso quiosque situado na histórica Praça do Ferreira, centro de Fortaleza, o Café Java, de propriedade de Mané Coco. O citado espaço era frequentado pelos responsáveis por aquela original e espirituosa proposta, os amigos Antônio Sales e Álvaro Martins Temístocles Machado, dentre outros ilustres, todos partícipes da mais alta classe social fortalezense e que compartilhavam as características do bom-humor e da ousadia na escrita.

O Grêmio Literário, que tinha por influência grandes nomes da literatura nacional e mundial, publicava, a cada domingo, um jornal de oito páginas denominado “O Pão”, dentro do qual a arte escrita era irreverentemente despejada aos admiradores locais da literatura. A iniciativa era composta pela seguinte estrutura, baseada na de uma padaria real: o “Padeiro-mor” era o presidente, os “Forneiros” os secretários, o “Gaveta” era a denominação do tesoureiro, o “Investigador das Cousas e das Gentes” era a alcunha do bibliotecário e, por fim, os “Amassadores” eram os sócios. A sede do clube de literatura era chamado pelos frequentadores de “O Forno”.

Além dos “pães” de domingo, várias outras obras de reconhecida importância à literatura nacional tiveram como autores os “padeiros” espirituais. Exemplos dessas publicações são Phantos (1893) de Lopes Filho, Trovas do Norte (1895) de Antônio Sales, Maria Rita (1897) de Rodolfo Teófilo, Marinhas (1897) de Antônio de Castro, dentre outras. Abaixo, o interessante e histórico Estatuto da instituição, escrito pelo “Padeiro-Mor” Antônio Sales:

1. Fica organizada, nesta cidade de Fortaleza, capital da "Terra da Luz", antigo Siará Grande, uma sociedade de rapazes de Letras e Artes, denominada Padaria Espiritual, cujo fim é fornecer pão de espírito aos sócios em particular, e aos povos, em geral.

2. A Padaria Espiritual se comporá de um Padeiro-Mor (presidente), de dois Forneiros (secretários), de um Gaveta (tesoureiro), de um Guarda-livros na acepção intrínseca da palavra (bibliotecário), de um Investigador das Coisas e das Gentes, que se chamará Olho da Providência, e demais Amassadores (sócios). Todos os sócios terão a denominação geral de Padeiros.

3. Fica limitado em vinte o número de sócios, inclusive a Diretoria, podendo-se, porém, admitir sócios honorários que se denominarão Padeiros-livres.

4. Depois da instalação da Padaria, só será admitido quem exibir uma peça literária ou qualquer outro trabalho artístico que for julgado decente pela maioria.

5. Haverá um livro especial para registrar-se o nome comum e o nome de guerra da cada Padeiro, sua naturalidade, estado, filiação e profissão a fim de poupar-se à Posteridade o trabalho dessas indagações.

6. Todos os Padeiros terão um nome de guerra único, pelo qual serão tratados e do qual poderão usar no exercício de suas árduas e humanitárias funções.

7. O distintivo da Padaria Espiritual será uma haste de trigo cruzada de uma pena, distintivo que será gravado na respectiva bandeira, que terá as cores nacionais.

8. As fornadas (sessões) se realizarão diariamente, à noite, à excepção das quintas-feiras, e aos domingos, ao meio-dia.

9. Durante as fornadas, os Padeiros farão a leitura de produções originais e inéditas, de quaisquer peças literárias que encontrarem na imprensa nacional ou estrangeira e falarão sobre as obras que lerem.

10. Far-se-ão dissertações biográficas acerca de sábios, poetas, artistas e literatos, a começar pelos nacionais, para o que se organizará uma lista, na qual serão designados, com a precisa antecedência, o dissertador e a vítima. Também se farão dissertações sobre datas nacionais ou estrangeiras.

11. Essas dissertações serão feitas em palestras, sendo proibido o tom oratório, sob pena de vaia.

12. Haverá um livro em que se registrará o resultado das fornadas com o maior laconismo possível, assinando todos os Padeiros presentes.

13. As despesas necessárias serão feitas mediante finta passada pelo Gaveta, que apresentará conta do dinheiro recebido e despendido.

14. É proibido o uso de palavras estranhas à língua vernácula, sendo, porém, permitido o emprego dos neologismos do Dr. Castro Lopes.

15. Os Padeiros serão obrigados a comparecer à fornada, de flor à lapela, qualquer que seja a flor, com excepção da de chichá.

16. Aquele que durante uma sessão não disser uma pilhéria de espírito, pelo menos, fica obrigado a pagar no sábado café para todos os colegas. Quem disser uma pilhéria superiormente fina, pode ser dispensado da multa da semana seguinte.

17. O Padeiro que for pegado em flagrante delito de plagio, falado ou escrito, pagará café e charutos para todos os colegas.

18. Todos os Padeiros serão obrigados a defender seus colegas da agressão de qualquer cidadão ignáro e a trabalhar, com todas as forças, pelo bem estar mútuo. É proibido fazer qualquer referência à rosa de Maiherbe e escrever nas folhas mais ou menos perfumadas dos álbuns.

19. Durante as fornadas, é permitido ter o chapéu na cabeça, exceto quando se falar em Homero, Shakespeare, Dante, Hugo, Goethe, Camões e José de Alencar porque, então, todos se descobrirão.

20. Será julgada indigna de publicidade qualquer peça literária em que se falar de animais ou plantas estranhos à Fauna e à Flora brasileiras, como: cotovia, olmeiro, rouxinol, carvalho etc.

21. Será dada a alcunha de "medonho" a todo sujeito que atentar publicamente contra o bom senso e o bom gosto artísticos.

22. Será preferível que os poetas da "Padaria" externem suas ideias em versos.

23. Trabalhar-se-á por organizar uma biblioteca, empregando-se para isso todos os meios lícitos e ilícitos.

24. Dirigir-se-á um apelo a todos os jornais do mundo, solicitando a remessa dos mesmos à biblioteca da "Padaria".

25. São considerados, desde já, inimigos naturais dos Padeiros - o Clero, os alfaiates e a polícia. Nenhum Padeiro deve perder ocasião de patentear seu desagrado a essa gente.

26. Será registrado o fato de aparecer algum Padeiro com colarinho de nitidez e alvura contestáveis.

27. Será punido com expulsão imediata e sem apelo o Padeiro que recitar ao piano.

28. Organizar-se-á um calendário com os nomes de todos os grandes homens mortos, Haverá uma pedra para se escrever o nome do Santo do dia, nome que também será escrito na Ata, em seguida à data respectiva. A "Avenida Caio Prado" é considerada a mais útil e a mais civilizada das instituições que felizmente nos regem, e, por isso, ficará sob o patrocínio da Padaria,

29. Encarregar-se-á um dos Padeiros de escrever uma monografia a respeito do incansável educador Professor Sobreira e suas obras.

30. A "Padaria" representará ao Governo do Estado contra o atual horário da Biblioteca Pública e indicará um outro mais consoante às necessidades dos famintos de ideias.

31. Nomear-se-ão comissões para apresentarem relatórios sobre os estabelecimentos de instrução pública e particular da Capital relatórios que serão publicados,

32. A Padaria Espiritual obriga-se a organizar, dentro do mais breve prazo possível, um Cancioneiro Popular, genuinamente cearense.

33. Logo que estejam montados todos os maquinismos, a Padaria publicará um jornal que, naturalmente, se chamará O Pão.

34. A Padaria tratará de angariar documentos para um livro contendo as aventuras do célebre e extraordinário Padre Verdeixa.

35. Publicar-se-á, no começo de cada ano, um almanaque ilustrado do Ceará contendo indicações uteis e inúteis, primores literários e anúncios de bacalhau.

36. A Padaria terá correspondentes em todas as capitais dos países civilizados, escolhendo-se para isso literatos de primeira água.

37. As mulheres, como entes frágeis que são, merecerão todo o nosso apoio excetuadas: as fumistas, as freiras e as professoras ignorantes.

38. A Padaria desejaria muito criar aulas noturnas para a infância desvalida; mas, como não tem tempo para isso, trabalhará por tornar obrigatório a instrução pública primada.

39. A Padaria declara desde já guerra de morte ao bendegó do "Cassino".

40. É proibido aos Padeiros receberem cartões de troco dos que atualmente se emitem nesta Capital.

41. No aniversário natalício dos Padeiros, ser-lhes-á oferecida uma refeição pelos colegas.

42. A Padaria declara embirrar solenemente com a secção "Para matar o tempo" do jornal "A Republica", e, assim, se dirigirá à redação desse jornal, pedindo para acabar com a mesma secção.

43. Empregar-se-ão todos os meios de compelir Mané Coco a terminar o serviço da "Avenida Ferreira".

44. O Padeiro que, por infelicidade, tiver um vizinho que aprenda clarineta, pistom ou qualquer outro instrumento irritante, dará parte à Padaria que trabalhará para pôr termo a semelhante suplício.

45. Pugnar-se-á pelo aformoseamento do Parque da Liberdade, e pela boa conservação da cidade, em geral.

46. Independente das disposições contidas nos artigos precedentes, a Padaria tomará a iniciativa de qualquer questão emergente que entenda com a Arte, com o bom Gosto, com o Progresso e com a Dignidade Humana.

Depois de 36 números, em dezembro de 1898, após seis anos de atividade, a Padaria fechou seu forno. Contudo, apesar do pouco tempo de vida, a Padaria Espiritual colecionou grandes feitos, dentre os quais, talvez o maior deles, ter sido inspiração para a criação da Academia Cearense de Letras, a mais antiga instituição do gênero no país, fundada a 15 de agosto de 1894.

Para maiores detalhes sobre o que foi a Padaria Espiritual, existe uma recente obra do poeta e ensaísta Sânzio de Azevedo intitulada “Breve História da Padaria Espiritual”. O livro, segundo nota disponível no site da Universidade Federal do Ceará, “enfeixa o essencial sobre os padeiros, suas fornadas literárias, sua estética e ousadias. A obra responde a uma demanda que se tornara premente. Era o pão que faltava no balaio da fortuna crítica que consagra o sodalício de Antônio Sales, Adolfo Caminha, Lívio Barreto, Rodolfo Teófilo, José Carlos Júnior” e cia.

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